sexta-feira, 17 de novembro de 2023
Como ensinar a leitura crítica de quadrinhos
quinta-feira, 16 de novembro de 2023
E a aventura continua... por outras mãos
Uma estratégia das editoras comerciais é a utilização de ghosts, artistas que auxiliam o quadrinista principal sem levar o crédito. Alguns são responsáveis apenas pelos desenhos de fundo, como paisagens e cenários. Will Eisner, um autor consagrado, contava com uma linha de produção com diversos profissionais. Jules Feiffer e Wally Wood, cartunistas que ganharam fama posteriormente, trabalharam no estúdio de Eisner ao lado de outros desconhecidos.
Personagens e histórias que sempre estiveram ligados a seus criadores originais passaram, após o falecimento desses artistas, para outras mãos que emulam o traço, os temas e as estruturas narrativas das histórias. É o caso de Carl Barks, cujo trabalho e estilo foram reproduzidos por Vicar e Daniel Branca e, mais recentemente, pelo brasileiro Carlos Mota. Alguns poucos artistas, porém, não permitiram que outros assumissem seu lugar, a exemplo de Hergé (Tintim) – que também contratava ghosts -, e de Bill Watterson (Calvin e Haroldo). Para os leitores que seguem o cânone, a segunda decisão é a mais correta, enquanto muitos fãs preferem que seus personagens preferidos sigam por novos caminhos.
Na Europa, inclusive, quadrinistas
contemporâneos sucederam os artífices de personagens consagrados, a exemplo do
caubói Lucky Luke, idealizado pelo belga Morris (pseudônimo de Maurice de
Bévère), que agora tem suas aventuras produzidas principalmente por Achdé e
Jul. As façanhas dos gauleses Astérix e Obelix, símbolos da França saídos da
imaginação do roteirista René Goscinny e pelo desenhista Albert Uderzo, foram transferidas
para Jean-Yves Ferri e Didier Conrad. Já o dândi Corto Maltese, concebido por
Hugo Pratt, serve de inspiração para que os espenhóis Juan Díaz Canales e Rubén
Pellejero continuem a trajetória do herói. Indagar qual são as melhores obras,
a dos criadores ou dos seus seguidores, torna-se um debate infrutífero. O
importante é verificar a qualidade desses trabalhos, os anteriores ou os atuais,
tanto no que concerne ao estilo gráfico como às narrativas.
Prof. Dr. Roberto Elísio dos Santos
Artista e pesquisadora Paula Mastroberti discute o processo de criação de sua graphic novel
Em seu artigo, "Se Peter Pan é uma história (em quadrinhos) para meninas: relato de um processo criativo", a artista de pesquisadora Paula Mastroberti discute o processo de criação de uma narrativa gráfica em andamento. O artigo é derivado da pesquisa desenvolvida durante o mestrado e o doutorado em Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, que teve como corpus a obra Peter and Wendy, de James M. Barrie, e suas edições e repercussões junto ao leitor brasileiro.
No artigo, Mastroberti descreve os métodos e concepções que fundamentam Peter Pan: uma história de meninas, com três volumes, já divulgados em acesso livre online. A autora declara que seu principal objetivo é divulgar a obra em quadrinhos e refletir sobre o processo de produção autoral, levando em consideração a complexidade do sistema semiótico dos quadrinhos.
Ao descrever o processo de criação da graphic novel, a autora discorre sobre suas motivações e metodologia de trabalho, o argumento e principais conceitos que utilizou como guias, o desenvolvimento do roteiro, a construção artística da obra, os materiais utilizados e o uso dos recursos da linguagem dos quadrinhos.
Pode-se dizer que o artigo apresenta quase que uma "radiografia" de uma produção quadrinística, chamando para aspectos nem sempre muito discutidos na literatura da área.
O artigo pode ser acessado no endereço Se Peter Pan é uma história (em quadrinhos) para meninas: | 9ª Arte (São Paulo) (usp.br).
Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro
quarta-feira, 15 de novembro de 2023
Quadrinhos franceses e belgas - Parte 4
f - Dos quadrinhos “franco-belgas” às distinções e diferenças nos quadrinhos belgas.
Tem havido tanto intercâmbio entre os quadrinhos belgas e franceses que muitas vezes se encontram referências a “quadrinhos franco-belgas”. O termo é conveniente, mas pode mascarar diferenças importantes entre os dois mercados nacionais (Baetens 2005, 2008; Lefèvre 2005; Bosque 2010: 123; Leroy 2010).
Mesmo os termos “quadrinhos
franceses” ou os “quadrinhos belgas” podem omitir especificidades
regionais ou provinciais. Tensões entre as capitais (Paris e Bruxelas) e as
províncias já são visíveis dentro e ao redor dos quadrinhos de século XIX, nas
viagens dos cartunistas e seus personagens das províncias para as capitais e às
vezes de volta.
Distinções linguísticas, culturais,
econômicas e artísticas
entre os quadrinhos belgas em flamengo e os em francês são importantes
para alguns fãs e estudiosos de quadrinhos belgas, enquanto os leitores
franceses que não são da Bélgica muitas vezes desconhecem traços e
diferenças nos quadrinhos incluindo a existência de uma tradição
distinta de quadrinhos flamengos.
O termo “quadrinhos franco-belgas”
também exclui ou ignora contribuições historicamente importantes de
cartunistas suíços, como Topffer e Steinlen (nascido na Suíça e
naturalizado francês), para quadrinhos na França e na Bélgica.
Paques (2012) e Lefevre (2009, 2011)
também analisam as publicações standards (broadsheets)
de banda desenhada belgas. Dupuis,
Casterman e Gordinne, para quadrinhos em língua francesa, e Standaard, para quadrinhos em
flamengo, têm sido grandes editores na Bélgica.
Lefevre (2005: 17) explica
que as séries de quadrinhos francesas são frequentemente publicadas
em capa dura no ritmo de um ou dois volumes por ano, enquanto os
flamengos são publicados a uma taxa de três a cinco livros por ano. Ele
observa que os volumes individuais flamengos podem ser mais curtos que os
franceses, mas que as séries flamengas tendem a ser mais longas, com
mais de 100 álbuns.
Em parte graças à sua taxa rápida de
publicação e sua serialização em jornais, os quadrinhos flamengos durante
sua “Idade de Ouro” (1945-1960) foram tipicamente envolvidos com
preocupações sociais e políticas atuais, em contraste com os franceses
(Baetens 2005: 34). Quadrinhos que o cartunista flamengo Vandersteen fez
para revista Tintin, publicada para leitores franceses, são
descritos como seus melhores trabalhos ou como exercícios de assimilação
cultural, através da atenuação da especificidade flamenga.
Jan Baetens (2005, 2008) argumenta que
até recentemente, cartunistas e editores belgas muitas vezes autocensuraram
a especificidade cultural belga, especialmente quando produzem em francês e
para leitores em França e que as referências visuais, como os horizontes
urbanos belgas, constituíram a significativa especificidade cultural nacional
compartilhada pelos quadrinhos belgas de língua flamenga e francesa.
Prof. Dr. Gazy Andraus
Quadrinhos franceses e belgas - Parte 3
e - Quadrinhos
Contemporâneos: a ascensão da história em quadrinhos adulta, alternativa, artística
e de vanguarda
Os quadrinhos do século XIX já exibiam
um fenômeno relacionado. Doré e Petit aspiravam ser pintores, mas
obtiveram sucesso com seus quadrinhos e ilustrações.
Hoje, os quadrinhos de Jacques de
Loustal lembram a de Cham, que, embora aristocrata, praticou
uma forma de arte que estava há muito tempo abaixo na hierarquia
cultural-artística mas agora é celebrado como a “9ª arte”. O estilo
pictórico de Loustal ajuda estrategicamente a posicionar seus quadrinhos como
artísticos.
Futuropolis simboliza uma virada geral
em direção à publicação de quadrinhos adultos e de arte que começou nas décadas
de 1960 e 1970. Em A Verdadeira História
de Futuropolis, (Cestac, 2007) ilustram-se várias maneiras pelas quais os
autores do grupo desafiaram a posição inferior dos quadrinhos na hierarquia
artístico-cultural, organizando tours
de livros com sessões de autógrafos e exposições de desenhos originais,
colocando seus livros na seção de arte de uma livraria parisiense e publicando livros
em grande formato.
L'Association, na França, fundada em
1990 pelos cartunistas David B, Killoffer, Mattt Konture,
Jean-Christophe Menu, Stanislas e Lewis Trondheim, dá continuidade à
prática da Futuropolis de publicar quadrinhos alternativos,
destacando-se como tal pelo seu conteúdo (muitas vezes auto-referencial e
autobiográfico), experimentação formal, e formato físico (preto e branco,
brochura e de dimensões atípicas). Eles lançaram o jornal Lapin em 1992.
Miller (2007: 57) argumenta que nos
quadrinhos contemporâneos de língua francesa, “as best-sellers das listas continuaram a ser dominadas por” histórias
escapistas.
Autores de obras em francês publicadas
em tradução para o inglês
incluem Zeina Abirached, Marguerite Abouet com Clement Oubrerie, David B,
Enki Bilal, Philippe Dupuy com Charles Berberian, Emmanuel Guibert, Marjane
Satrapi, Joann Sfar, Jacques Tardi e Lewis Trondheim. Diversos desses
artistas alcançaram sucesso nos campos de quadrinhos alternativos e
convencionais. Alguns quadrinhos belgas contemporâneos também foram publicados
em tradução para o inglês.
Prof. Dr. Gazy Andraus
Quadrinhos franceses e belgas - Parte 2
c - (mais) dois
fundadores ajudam a criar quadrinhos como meio de massa e forma de arte
Saint-Ogan e o belga Hergé (1907–1983) são
figuras gêmeas, ao lado de Topffer e Outcault, que as instituições nacionais
inicialmente adotaram como fundadores da cultura francesa e quadrinhos belgas.
O artigo de abertura de Groensteen (1996)
na primeira edição da Neuvieme Art, da CNBDI,
examina as muitas influências não reconhecidas de Hergé trazidas de Zig
et Puce em sua série Tintin. Tintin também apresentava
balões de fala desde o início, o que ainda era uma anomalia nos quadrinhos
franceses.
d - Séries, escolas e estilos do séc. 1900 até a década de 1950
Tal como fez Topffer, Saint-Ogan e Hergé inspiraram gerações de cartunistas em França, Bélgica, Suíça e além. Christophe é uma figura intermediária chave entre Topffer e Saint-Ogan.
Groensteen afirma que os quadrinhos
de Christophe ajudaram tanto a revigorar os quadrinhos como
transferi-los para um público mais juvenil no final do século XIX.
Os quadrinhos de Christophe e Candide
foram serializados em revistas infantis, respectivamente Le petit Francais
illustré e St-Nicolas, antes da publicação em livro.
Vários outros quadrinhos clássicos
foram lançados em revistas infantis que assumiam um caráter
humorístico ou abordagem pedagógica e destinavam-se a meninos, meninas ou
ambos. De 1905, Becassine, apresentando uma empregada bretã
gentil, mas simplória, trabalhando em uma casa aristocrática parisiense, roteirizada
por Caumery e desenhada por Joseph-Porphyre Pinchon é serializada em
La semaine de Suzette,
dirigido a meninas burguesas, seguida pela publicação de livros.
A década de 1930 foi uma “‘era
de ouro’ da bande dessinée”, durante “a qual tiras clássicas americanas
começaram a ser importadas massivamente para a França”, principalmente
por meio do Journal de Mickey. Miller lembra-nos que “este ataque”
varreu “alguns títulos franceses de longa data, como L’epatant”.
Para Miller (2007: 17), “[o] renascimento
da bande dessinée francófona ocorre na Bélgica”, especialmente com Hergé
e sua série “Tintin”, iniciada em 1929. Isso levou a “uma segunda
era de ouro da bande dessinée”, no “final dos anos 1940 e
O desenho do estilo ligne claire é característico desta
“escola de Bruxelas” (Miller 2007: 19). A partir de 1938, os quadrinhos
foram também serializados na revista Spirou, também belga.
Artistas associados à revista incluem Andre Franquin, Jije, Morris e Peyo.
A “escola Charleroi” (ou Marcinelle) é conhecida por seu estilo de desenho
atomizado.
A década de 1960 viu o início de
uma enorme transformação nos quadrinhos, com a chegada de novos
artistas, séries e revistas, e o aparecimento gradual de quadrinhos para
adultos, em parte através da influência dos quadrinhos underground americanos.
Em 1959, o cartunista belga Jean-Michel
Charlier e os artistas franceses René Goscinny e Albert Uderzo
criaram revista Pilote. Asterix, de Goscinny e
Uderzo, e outras séries passaram daí para sucesso internacional
Vários artistas, como Claire
Bretecher, Gotlib, Nikita Mandryka e outros fundaram periódicos, incluindo L'echo
des savanes (1972), Metal hurlant (1975) e À suivre
(1977).
Alguns quadrinhos voltados para
adultos entraram em conflito com uma lei francesa de 1949 que regulamenta
publicações juvenis, incluindo quadrinhos, que foi aprovada com o apoio
combinado de católicos e comunistas. Pela lei, publicações de quadrinhos
foram sancionadas por retratar nudez e violência, por exemplo.
Miller (2007: 26–27, 35–41) observa que as
principais tendências nos quadrinhos na década de 1970 foram ficção
científica e sátira social, e, na década de 1980, ficção
histórica e fantasia heróica.
Prof. Dr. Gazy Andraus
Quadrinhos franceses e belgas - Parte 1
A apresentação
do capítulo e coordenação da discussão foram realizadas por Gazy Andraus.
a - Origens suíças
para quadrinhos franceses e belgas
Em 1996, dois grupos de especialistas apresentaram definições concorrentes de quadrinhos. Um deles, associado ao Centre Belge de la Bande Dessinée (CBBD) em Bruxelas, celebrou o centenário dos quadrinhos, inventados, segundo eles, quando o americano Richard Felton Outcault (1863–1928) introduziu balões de fala em seus quadrinhos Hogan's Alley ou Yellow Kid em 1896; o outro, incluindo Thierry Groensteen, associado ao Centro Nacional de Quadrinhos da França em Angoulême, argumentou, contrariamente que os quadrinhos foram inventados por Rodolphe Topffer (1799-1846), um cartunista suíço falecido 150 anos antes.
Topffer litografou e publicou
suas próprias histórias em quadrinhos, a mais curta das quais tinha 52
páginas, em pequenas tiragens. Outcault, junto com outros cartunistas
americanos de sua época, criou histórias em quadrinhos e páginas para
produção em massa, jornais de grande tiragem, controlados por magnatas
poderosos da imprensa. Com Topffer, os quadrinhos assumem a forma de um
livro de artista, enquanto os dos cartunistas americanos são um meio
de comunicação de massa.
Alguns estudiosos de quadrinhos
argumentam que os quadrinhos de Topffer são de fato fundamentais para o
futuro desenvolvimento de quadrinhos na Europa Ocidental e além. Vários
cartunistas foram inspirados por Topffer
b - Influências transnacionais no balão de fala e publicações standards (broadsheets)
Pesquisa feita por especialistas de quadrinhos sobre as primeiras aparições de balões de fala nos quadrinhos franceses no final do século XIX e início do século XX têm rendido muitos exemplos, incluindo Sam et Sap [Sam e Sap] de Candide, obra colonialista com um grotesco caráter africano negro devendo muito ao menestrel (minstrelsy) e talvez inspirado em parte por Buster Brown.
Esse quadrinho e vários outros franceses
do início do século XX são prova da influência de quadrinhos americanos com
balões de fala, inclusive os publicados na edição parisiense do New York
Herald. Estes últimos incluem Buster Brown, Little Nemo in
Slumberland e Little Sammy Sneeze, de Winsor McCay, também
rapidamente publicados como livros em tradução francesa. O intercâmbio entre os
dois países era uma via de mão dupla na criação de quadrinhos.







